ARISTÓTELES

ARISTÓTELES

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

CAPÍTULO 5

   Entende-se por substância tudo aquilo que nem é dito de algum sujeito nem existe em algum sujeito (ex.: um certo homem, um certo cavalo...). Dentro das substâncias, contudo, podemos ter substâncias segundas, que são espécies a que as coisas primeiramente chamadas substâncias pertencem e também os géneros dessas espécies. Por exemplo, um certo homem: a espécie é homem e o género é animal, logo homem e animal são as substâncias segundas da substância "um certo homem".

            O nome e a definição das coisas que são ditas de um sujeito predicam-se necessariamente do sujeito. Por exemplo, "homem" é dito do sujeito "um certo homem" e a definição de homem predica-se de "um certo homem", pois um certo homem também é homem e um homem é um certo homem.
Quanto às coisas que existem num sujeito, nem o nome nem a definição se predicam do sujeito. Por exemplo, "branco" existe no sujeito "corpo" mas "corpo" não se predica de "branco", pois existe cor branca num corpo mas não existe um corpo na cor branca.
Todas as outras coisas, ou são ditas das substâncias primeiras como de sujeitos ou existem nelas como sujeitos. Por exemplo, "cor" existe no sujeito "corpo" e, portanto, também em "um certo corpo", pois se não existisse cor em nenhum corpo individual, não poderia de todo existir em corpo.
Conclusão: se as substâncias primeiras não existissem, nenhuma outra coisa poderia existir.

A espécie (mais específica e informativa) é uma substância segunda e é mais substância do que género (que é mais vago), pois está mais próxima da substância primeira. Por exemplo, para se dizer o que é uma certa árvore, é mais informativo dizer a espécie ("é uma árvore") do que o género ("é uma planta"). No fim, as substâncias primeiras são os sujeitos de todas as outras coisas, pois predicam-se nelas e existem nelas. Podemos dizer que as substâncias primeiras estão para as outras coisas assim como a espécie está para o género.
Das próprias espécies nenhuma é mais substância do que outra (não é mais adequado dizer de um certo homem que é um homem) nem nenhuma substância primeira é mais substância do que outra (um certo homem não é mais substância que um certo gato).
Além das substâncias primeiras, as espécies e os géneros são as únicas outras coisas que são chamadas substâncias segundas, pois elas são as únicas que revelam a substância primeira (se tivermos que dizer de um certo homem o que ele é, será adequado responder indicando a espécie ou o género). Também neste caso podemos dizer que as substâncias primeiras estão para todas as outras coisas assim comi as espécies e os géneros das substâncias primeiras estão para tudo o resto. Por exemplo, se “um certo homem” for “gramático”, então estamos a chamar “gramático” ao “homem” e ao “animal”.
É comum a todas as substâncias não existir nenhum sujeito; pois a substância primeira nem é dita de um sujeito nem existe num sujeito. As substâncias segundas, por seu turno, também não existem num sujeito. Por exemplo, “homem” é dito do sujeito “um certo homem” mas não existe um homem num certo homem.
Também a diferença não existe num sujeito: “pedestre” é dito do sujeito “homem” mas não existe num homem. A definição de diferença predica-se daquilo de que a diferença é dita: “pedestre” é dito de “homem”, logo a definição de “pedestre” também se predica do “homem”, pois o “homem” é “pedestre”.
É uma característica das substâncias e das diferenças que tudo o que é chamado a partir delas o seja sinonimicamente, pois todos os predicados formados a partir delas predicam-se ou dos indivíduos ou das espécies; assim, da substância primeira não se forma nenhum predicado e das substâncias segundas a espécie predica-se do indivíduo, o género predica-se da espécie e do indivíduo e a diferença predica-se da espécie e do indivíduo. Resta a noção de que as coisas sinónimas são aquelas coisas com o nome em comum e na mesma definição e tudo o que é chamado a partir das substâncias e das diferenças é-o sinonimicamente.
Todas as substâncias primeiras parecem significar um certo “isto” (pois a substância é individual e numericamente uma); já nas substâncias segundas “isto” não é verdade (significam uma qualificação, pois o sujeito não é um. Por exemplo, homem e animal são ditos de muitas coisas).
Uma outra característica das substâncias é não terem qualquer contrário. Por exemplo, um certo homem não tem contrário. Sei que isto pode parecer confuso, uma vez que no senso comum dir-se-ia que não, que o contrário de um certo homem seria uma certa mulher mas torno a relembrar que em Aristóteles são as coisas que são sinónimas ou antónimas e não a gramática. Um certo homem enquanto substância, enquanto “coisa”, não tem contrário, pois o homem e a mulher da espécie humana são a mesma substância.
Outra característica da substância é o facto de não admitir mais e menos: um homem não é mais ou menos homem que outro homem ou que ele mesmo.
A substância, sendo numericamente uma e a mesma, não pode receber contrários: uma cor, que é numericamente uma e a mesma, não pode ser branca e preta ao mesmo tempo; no entanto, a substância é capaz de receber contrários individualmente (note-se que atrás eu disse que uma característica da substância é não TER contrário, aqui refiro-me a RECEBER contrário, ou seja, a ser qualificada com um contrário… só para o caso de ter havido confusão): por exemplo, um homem pode ser branco ou pode ser moreno. Numa frase: a substância em si mesma não pode ter contrário como expliquei anteriormente, mas os qualificativos que fazem parte da substância já admitem contrários, mas nunca em simultâneo.

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